terça-feira, 19 de maio de 2015

As lições da mala

De todas as viagens que fiz, a que mais adquiri aprendizado foi a para Valência na Espanha – no Campus Party 2007.  Embora tenha ido a um evento tecnológico e tenha participado de palestras, nem lembro ao certo o que rolou na época em termos de palestras. Foram palavras que foram dissipadas com o tempo. Os aprendizados que tive foram situações que aconteceram e que me serviram como lições de vida.
 A primeira foi sobre o cuidado amoroso de Deus, onde ele nos presenteia com bons presentes e ter fé e nunca desistir, onde eu relato com mais detalhes nesse link. Se você tiver interesse é só clicar nele e ler. http://www.linolica.com.br/presentao.htm
A segunda foi da definição da palavra AMOR por um espanhol. Qualquer dia, eu escrevo sobre isso, mas ainda guardo no coração esse aprendizado.
A terceira que quero escrever hoje é sobre a MALA.  Vou tentar resumir mais ou menos como tudo começou. Em 2005 eu mochilei com meus dois filhos para a Argentina. Fiz duas mochilas com peças de roupas e dei para cada um levar. A mala maior com tudo o que precisava para a viagem como toalhas, casacos, kit limpeza, etc, estava comigo. Como mãe, achei melhor poupa-los de muito peso, pois eram meninos ainda de 9 e 11 anos. 
Em 2007 quando descobri que tinha ganhado uma viagem com tudo pago para Valencia- Espanha com direito a acompanhante e decidimos que o Felipe seria o meu acompanhante, pensei em adotar o mesmo esquema. Eu levaria uma mala grande e ele uma menor, pois queria poupá-lo de carregar muito peso.  Agora com seus 13 anos, meu pequeno adolescente disse:
- Mãe! Eu não quero levar malinha pequena. Eu quero uma mala grande. Eu vou pegar a da tia Cidoca emprestada.
Eu contra-argumentei dizendo não ter necessidade de se levar duas malas grandes. Ficaríamos apenas uma semana, e que ele seria responsável pela bagagem dele. Mas o Felipe não se deixou influenciar.  Manteve firme a sua postura de que queria também uma mala grande para levar suas coisas separadamente.
Foi aí que aprendi algumas lições sobre a MALA:
Às vezes limitamos os nossos filhos. Queremos poupá-los de carregar peso, de incômodos, frustrações e impedimos-os de serem autônomos. Canso de ver isso nas escolas. Pais que protegem em demasia seus filhos e eles não crescem para vida. Pais que limitam. Agora não é mais o momento de por limites. Eles já foram colocados quando crianças. A fase agora é outra. Penso que o limite da educação, do respeito, da ética flui naturalmente, então não tem porque ficar batendo na mesma tecla. Agora é momento tirar deles a preguiça e fazer com que carreguem sua própria bagagem.  Sejam responsáveis pelos seus atos, pelas suas irresponsabilidades. Podemos sim orientá-los, aconselhá-los, mas nunca protegê-los a ponto de não carregarem as suas bagagens. 

E  assim, ele arrumou a mala dele sozinho e percebi que estava bem vazia. Não opinei e deixei ele fazer do jeito dele, achando que em algum momento fosse se arrepender e ver que tinha esquecido alguma coisa.  Mas mesmo assim, ele foi carregando aquela mala quase do tamanho dele desengonçadamente.
Partimos para Valencia e durante o evento ganhamos muitos brindes, como camisetas, barraca, colchão de ar, saco de dormir, travesseiro, lençol. Adivinhe para onde foi parar tudo isso? Na mala do Felipe.  No último dia, estava brigando para fazer caber tudo em minha mala. E o Felipe estava com as suas coisas devidamente acomodadas em sua mala. Eu tive que engolir. Muitas vezes, nossos filhos são muito mais visionários que a gente. A gente tem que aprender a confiar na percepção deles. Jamais me passou pela cabeça que iriamos ganhar tanta coisa, mas parece que ele já vislumbrava tudo isso...  1 x 0 para o Felipe.
Ele não trouxe uma única peça de roupa suja para casa. Descobriu uma promoção do MSN onde se lavava e secava roupa de graça no evento.  Foi sorrateiro até lá, lavou tudo e dobrou cuidadosamente. Estava com suas coisas limpas, cheirosas, organizadas.  E eu, com tudo  sujo, amassado, fedendo, entulhado na minha mala. 2 x 0 para o Felipe.  O pessoal do grupo ficou impressionado de ver alguém tão organizado. Na verdade... a desengonçada foi eu.

 Foi nessa viagem que vi meu filho crescer e perceber que ele já estava pronto para alçar voo. E para quem não sabe, ele voou... Com seus 21 anos  já conhece  em torno de 25  países no mundo, fala  fluentemente o francês e  o inglês. Consegue se comunicar em espanhol,  sabe um pouco de alemão, mandarim e dedica-se nesse momento em aprender um pouco do finlandês.  Um detalhe que nunca mencionei: Nunca tive dinheiro para lhe pagar um curso de inglês, o que aprendeu foi no ensino fundamental,  médio,  sozinho assistindo seriados em inglês e pela internet, depois disso, ele descobriu que não tinha mais limites para se aprender. E a nossa missão como pais e deixar que eles próprios sejam responsáveis por montarem e carregarem a sua BAGAGEM sozinhos.  É claro que a gente fica escondidinha prestando atenção em tudo e se pedirem uma ajuda, lá estamos nós disponíveis para um apoio, uma conversa, um conselho, uma amizade. 


4 comentários:

  1. Fiquei sem palavras diante da infinitude dessa lição. Há o que se aprender sempre, mesmo que nas pequenas coisas. Parabéns minha irmã por esse discernimento, por esta praticidade com a vida.
    A propósito: A minha mala está por ai viajando, viajando.... o que será que ela tem pra dizer para mim quando voltar?

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  2. É... minha irmã... Sua mala viaja até hoje. Sabe-se Deus por onde ela passou e quantas aventuras vivenciou. Ela nunca mais será a mesma. rsrsrsrs... Provavelmente sua mala vai voltar "cheia de bagagem" rsrsrs. Obrigada por cedê-la gentilmente ao seu sobrinho. :)

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  3. Perfeito Lina! Os voos da minha são mais baixos mas eu não seguro não!

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  4. Magda, você precisa compartilhar os seus aprendizados com relação a Camila. Ela é uma fonte de inspiração e tem vôos belíssimos e não são mais baixos que o Fe não... de forma alguma, pelo contrário os vôos dela são excelentes e cheios de superação - são altos demais. Ela é um exemplo em nossa vida.

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