sábado, 17 de outubro de 2026

Hamã no Poder: quando achamos que estamos fazendo tudo certo

 

Hamã no Poder: quando achamos que estamos fazendo tudo certo

Sabe quando você acha que está fazendo tudo corretamente?

Nos anos 90, eu era casada, cuidava do marido, dos filhos e da casa. Ensinava meus meninos a andarem no caminho de Deus, levava-os todos os domingos à Escola Bíblica Dominical e ainda consegui matricular os dois em uma escola cristã.

Eu queria protegê-los. Não queria que se “contaminassem com as coisas do mundo”, muito menos que fossem doutrinados por ideias que considerava contrárias à minha fé.

Sim… na época, esse pensamento era muito comum dentro da igreja. E eu estava feliz por seguir, com esmero, a cartilha da família tradicional. Estava feliz por acreditar que fazia a coisa certa.

O tempo passou. E foi em 2004, enquanto levava meu filho, então com 10 anos, à escola cristã, que ouvi uma frase no meu coração que jamais esqueceria:

— Cuidado! Hamã no poder!

Abri o livro de Ester e comecei a estudá-lo com atenção.

Hamã era um homem influente que não suportava Mordecai e, por causa dessa inimizade, tramou a destruição de todo um povo. Apresentou ao rei uma narrativa conveniente, apontou as diferenças daquele grupo como uma ameaça e ainda ofereceu dinheiro para financiar o extermínio.

A coisa aconteceu mais ou menos assim.

1. O diferente

Imagine-se vivendo em um lugar onde você é diferente de quase todo mundo e não consegue se enquadrar no padrão estabelecido.

Algumas pessoas olham para você com desconfiança. Outras chegam a desejar sua morte.

A situação se agrava quando uma notícia falsa sobre o seu jeito de ser, cuidadosamente construída e recheada de meias-verdades, chega aos ouvidos de quem tem poder para decidir seu destino.

De repente, sua vida e a de todos aqueles que não se enquadram naquele padrão estão ameaçadas.

Não é fácil ser diferente em um lugar assim. Muitas vezes, esconder a própria identidade parece ser a única maneira de sobreviver.

O opressor não procura compreender. Acredita ter certeza absoluta de que o diferente está errado e precisa ser eliminado por não seguir os padrões que considera inquestionáveis — muitas vezes, justificados em nome da religião.

2. Quem são as personagens?

Ester — Uma jovem judia que esconde sua identidade porque revelar quem é pode colocá-la em perigo. Ela se torna rainha, mas mantém em segredo sua origem, seguindo a orientação de Mordecai.

Mordecai — Um homem que não esconde sua identidade e se recusa a se curvar diante de Hamã. Sua postura provoca a ira do poderoso conselheiro do rei. Discretamente, Mordecai também descobre uma conspiração contra Assuero e ajuda a salvar a vida do monarca, embora seu feito não seja imediatamente recompensado.

Hamã — Um homem influente, casado com Zeres e pai de dez filhos. Era a principal autoridade do reino depois do rei. Bem-sucedido e poderoso, poderia ser apresentado como alguém zeloso pelo país, preocupado com a ordem e com as leis. Afinal, era assim que procurava justificar suas ações.

Mas, por trás desse discurso, havia uma raiva mortal de Mordecai.

Hamã transformou uma inimizade pessoal em uma acusação coletiva. Convenceu o rei de que existia um povo perigoso, diferente dos demais, cujas leis não deveriam ser toleradas. Propôs sua destruição e ofereceu dinheiro aos cofres reais.

O próprio texto bíblico registra sua argumentação:

“Existe espalhado e dividido entre os povos em todas as províncias do teu reino um povo, cujas leis são diferentes das leis de todos os povos, e que não cumpre as leis do rei; por isso não convém ao rei deixá-lo ficar.

Se bem parecer ao rei, decrete-se que os matem; e eu porei nas mãos dos que fizerem a obra dez mil talentos de prata, para que entrem nos tesouros do rei.”

— Ester 3:8-9

Perceba a estratégia: Hamã apresenta as diferenças daquele povo como uma ameaça à ordem estabelecida. Em vez de revelar seu ódio pessoal, constrói uma justificativa política para exterminar um grupo inteiro.

Era o vilão daquela trama, mas sua maldade vinha disfarçada de zelo e preocupação com o reino.

Rei Assuero — Distraído e pouco criterioso, aceita a proposta de Hamã e assina o decreto sem investigar adequadamente a situação.

Na minha imaginação, a cena poderia ser resumida assim: “Bora beber e comemorar! Afinal, é só um povinho sem valor. Que diferença faria para a humanidade?”

Sabe de nada, inocente…

3. E o que aconteceu?

Hamã consegue o que queria. O rei assina o decreto que condena os judeus à morte.

Mas a situação muda quando Ester revela sua identidade e denuncia o plano de Hamã. Assuero descobre que sua própria esposa pertence ao povo condenado e que foi manipulado pelo homem em quem confiava.

Mordecai também é reconhecido por ter salvado a vida do rei.

O decreto, porém, já havia sido publicado e não podia simplesmente ser revogado. A solução encontrada foi emitir um novo decreto, permitindo que os judeus se reunissem e se defendessem daqueles que tentassem atacá-los.

Hamã acabou sendo condenado à morte, e Mordecai assumiu uma posição de destaque no reino.

A trama sofreu uma reviravolta. O povo que estava condenado à destruição recebeu a possibilidade de se defender.

Mas fico pensando em uma coisa: quantas vezes somos como o rei Assuero, aceitando as meias-verdades de pessoas mal-intencionadas sem questionar?

Quantas vezes só percebemos a gravidade da injustiça quando descobrimos que alguém da nossa família faz parte do grupo perseguido?

4. A história não ficou no passado

É importante lembrar o contexto original dessa narrativa: Ester era uma jovem judia que vivia no Império Persa, em um ambiente cultural e religioso diferente daquele de seu povo. Ao se tornar rainha, teve a oportunidade de intervir para impedir a destruição dos judeus.

Entretanto, a história de perseguição aos diferentes continua reaparecendo, de outras formas, ao longo dos séculos.

Negros, judeus, gays, travestis, pessoas transexuais, refugiados, imigrantes, pessoas com deficiência e tantos outros grupos já foram e continuam sendo alvos de discriminação, exclusão e violência.

Atitudes racistas, homofóbicas e xenofóbicas não combinam com o amor ao próximo que Jesus ensinou.

E o preconceito nem sempre se manifesta como ódio explícito. Às vezes, aparece na tentativa de corrigir o outro, de determinar quem ele deveria ser, de afirmar que sua identidade é errada ou de dizer que seu lugar não é aqui.

É o desejo de que a pessoa possa até existir, desde que seja bem longe de nós, sem ocupar os mesmos espaços e sem ter os mesmos direitos.

Tudo isso pode dar lugar a Hamã. Não a Deus.

É Hamã no poder.

5. Quando o preconceito veste a roupa da superioridade

Um dos exemplos mais cruéis da história humana foi o regime nazista, centralizado na figura de Adolf Hitler.

Discursos de superioridade racial, especialmente a ideia de uma suposta raça ariana superior, foram usados para justificar a dominação, a perseguição e o extermínio de milhões de pessoas.

Os judeus foram o principal alvo do Holocausto, mas o regime nazista também perseguiu outros grupos, entre eles pessoas com deficiência, homens homossexuais e o povo romani, conhecido como cigano.

É impossível não lembrar de Alan Turing.

Matemático britânico e pioneiro da computação, Turing teve um papel fundamental no trabalho de decifração dos códigos secretos alemães durante a Segunda Guerra Mundial. Seu trabalho e o de seus colegas em Bletchley Park contribuíram decisivamente para o esforço de guerra dos Aliados. Há estimativas históricas de que esse trabalho tenha ajudado a encurtar a guerra em até dois anos e, consequentemente, salvado milhões de vidas.

Sua contribuição para a computação também deixou marcas profundas no mundo em que vivemos. Os fundamentos teóricos desenvolvidos por Turing ajudaram a abrir caminhos para a informática moderna.

E, apesar de tudo o que fez pela humanidade, ele foi condenado criminalmente na Inglaterra por sua homossexualidade.

Em 1952, recebeu uma condenação que o levou a se submeter à castração química, como alternativa à prisão. Morreu em 1954, por suicídio, segundo a conclusão oficial da época.

É doloroso pensar que um homem que contribuiu tanto para salvar vidas tenha sido submetido a tamanha injustiça por ser quem era.

Anos depois, o Reino Unido reconheceu oficialmente a injustiça sofrida por Turing. Em 2021, seu rosto passou a estampar a nota de 50 libras, uma homenagem à sua contribuição científica e histórica.

Os homens o condenaram, mas seu legado permaneceu.

A história de Turing nos lembra que uma sociedade pode se beneficiar imensamente da contribuição de alguém e, ainda assim, tratá-lo de maneira cruel por causa de sua identidade.

6. Afinal, quem colocamos no poder?

Montando esse imenso quebra-cabeças, percebo que sempre haverá pessoas diferentes no mundo. Cada ser humano é único, mas alguns grupos continuam sofrendo repressão, tentativas de padronização e até projetos de extermínio.

Resta saber a quem daremos crédito.

Ao decreto de Hamã, que transforma diferenças em ameaças e pessoas em inimigos?

Ou aos ensinamentos de Cristo, que nos chamam a amar o próximo?

Para mim, Hamã representa aquilo que é contrário à vida: a opressão, o preconceito e a tentativa de apagar o outro. Cristo, por sua vez, é o Autor da vida, aquele cujos ensinamentos me convidam a acolher, amar e rever minhas próprias atitudes.

Naquela época, fiquei me perguntando quem seria Hamã. Quem seria aquele homem capaz de provocar o apagamento da história de um povo inteiro?

Anos mais tarde, eu descobriria que essa pergunta também precisava ser feita diante do espelho.

7. Quando Hamã chegou à minha cozinha

Anos depois, meu filho se revelou gay.

E eu, desesperada, comecei a orar para que Deus o transformasse. Eu pedia que meu filho virasse homem, como se sua orientação sexual significasse que ele precisava ser consertado.

Eu estava estatelada na cozinha, em lágrimas, implorando a Deus por uma mudança.

Foi então que uma frase veio à minha memória, como uma voz no coração:

“Errais, não conhecendo as Escrituras, nem o poder de Deus. Porque, na ressurreição, nem casam, nem se dão em casamento; são, porém, como os anjos no céu.”

— Mateus 22:29-30

Essa passagem, que fala sobre a ressurreição e o casamento, ganhou um significado pessoal naquele momento. Ela me levou a questionar minhas certezas e a pensar no quanto eu precisava conhecer melhor as Escrituras e rever a maneira como estava olhando para meu filho. Essa questão da sexualidade era algo meramente terreno. E que vale mesmo é o coração e não a orientação sexual.

Também me lembrei de que meus filhos pertencem a Deus e são amados por Ele.

Naquele momento, comecei a aceitar meu filho em amor.

Ali se iniciou o fim do processo de apagamento da identidade dele dentro da minha própria casa.

Meu filho é especial para Deus. E eu não precisava transformá-lo em outra pessoa para amá-lo.

Foi aí que liguei os pontos.

Dentro da religião, muitas vezes se tenta apagar a comunidade LGBTQIA+ por meio de discursos sutis, revestidos de zelo espiritual, mas carregados de preconceito homofóbico.

Assim era Hamã.

E, dolorosamente, eu também havia participado desse processo.

Pedi perdão ao meu filho.

Passamos a viver em paz, e eu o amo com todo o meu amor de mãe.

Essa é a minha família.

8. Reconhecendo Hamã nos dias de hoje

Desde então, quando vejo alguém dentro da religião tentando apagar a comunidade da qual meu filho faz parte, lembro-me de Hamã.

Foi assim em 2018, quando, durante sua campanha presidencial, Jair Bolsonaro popularizou a declaração de que “meninos vestem azul e meninas vestem rosa”, associada à então futura ministra Damares Alves, que a proferiu na ocasião.

Para mim, esse tipo de discurso é inadmissível vindo de uma liderança política que deve representar e respeitar todas as famílias.

Quando um governante apresenta um único modelo de identidade como o correto, corre o risco de excluir aqueles que não se encaixam nele.

E, quando essa exclusão é reforçada por discursos religiosos, a situação se torna ainda mais preocupante.

Não se trata apenas de discordar de alguém. Trata-se de decidir quem merece ser respeitado, quem pode ocupar determinados espaços e quem deve esconder sua identidade para ser aceito.

É assim que a intolerância se instala: nem sempre com ameaças explícitas, mas com palavras que parecem inofensivas, regras que parecem naturais e convicções que nunca são questionadas.

Por isso, hoje, quando reconheço esse movimento, sei o nome que dou a ele:

Hamã no poder.

9. O que aprendi nessa caminhada

Não escrevo este texto porque sempre soube o que era certo.

Escrevo porque precisei aprender. Precisei reconhecer que, mesmo desejando fazer o bem, eu poderia contribuir para o sofrimento de alguém.

Acreditava estar protegendo meus filhos quando tentava afastá-los de tudo aquilo que considerava errado. Mas, quando meu próprio filho revelou quem era, precisei entender que amar também significa abandonar a tentativa de controlar a identidade do outro.

Não foi uma mudança que aconteceu por eu ter todas as respostas. Foi uma mudança que começou quando me permiti questionar minhas certezas.

Hoje, compreendo que a intolerância não se limita ao ódio declarado. Ela também aparece quando queremos corrigir pessoas que não precisam ser consertadas, quando negamos a elas o direito de existir plenamente ou quando usamos a religião para justificar a exclusão.

A fé não deveria ser um instrumento de apagamento.

Se digo que sigo a Cristo, preciso olhar para a maneira como trato as pessoas. Preciso reconhecer que a dignidade humana não depende de alguém se encaixar nas minhas expectativas.

Sempre haverá diferenças entre nós. Isso não precisa ser uma ameaça. Pode ser uma oportunidade de aprender, de conviver e de ampliar nossa compreensão sobre o amor.

Resta saber se daremos crédito ao decreto de Hamã, que oprime, ou aos ensinamentos de Cristo, que nos convidam a amar o próximo.

Eu já sei qual caminho quero seguir.

E, quando percebo que estou repetindo velhos padrões, lembro que também preciso vigiar meu próprio coração.

Porque Hamã não está apenas nas páginas de um livro ou nas atitudes de pessoas que condenamos.

Às vezes, ele aparece em nossas certezas, em nossos preconceitos e nas nossas tentativas de decidir quem o outro deveria ser.

Que eu nunca me esqueça de que a fé deve produzir amor, justiça e vida — nunca apagamento.

Mais amor. Menos Hamã.

Lina Linólica



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