sábado, 17 de outubro de 2026

Hamã no Poder: quando achamos que estamos fazendo tudo certo

 

Hamã no Poder: quando achamos que estamos fazendo tudo certo

Sabe quando você acha que está fazendo tudo corretamente?

Nos anos 90, eu era casada, cuidava do marido, dos filhos e da casa. Ensinava meus meninos a andarem no caminho de Deus, levava-os todos os domingos à Escola Bíblica Dominical e ainda consegui matricular os dois em uma escola cristã.

Eu queria protegê-los. Não queria que se “contaminassem com as coisas do mundo”, muito menos que fossem doutrinados por ideias que considerava contrárias à minha fé.

Sim… na época, esse pensamento era muito comum dentro da igreja. E eu estava feliz por seguir, com esmero, a cartilha da família tradicional. Estava feliz por acreditar que fazia a coisa certa.

O tempo passou. E foi em 2004, enquanto levava meu filho, então com 10 anos, à escola cristã, que ouvi uma frase no meu coração que jamais esqueceria:

— Cuidado! Hamã no poder!

Abri o livro de Ester e comecei a estudá-lo com atenção.

Hamã era um homem influente que não suportava Mordecai e, por causa dessa inimizade, tramou a destruição de todo um povo. Apresentou ao rei uma narrativa conveniente, apontou as diferenças daquele grupo como uma ameaça e ainda ofereceu dinheiro para financiar o extermínio.

A coisa aconteceu mais ou menos assim.

1. O diferente

Imagine-se vivendo em um lugar onde você é diferente de quase todo mundo e não consegue se enquadrar no padrão estabelecido.

Algumas pessoas olham para você com desconfiança. Outras chegam a desejar sua morte.

A situação se agrava quando uma notícia falsa sobre o seu jeito de ser, cuidadosamente construída e recheada de meias-verdades, chega aos ouvidos de quem tem poder para decidir seu destino.

De repente, sua vida e a de todos aqueles que não se enquadram naquele padrão estão ameaçadas.

Não é fácil ser diferente em um lugar assim. Muitas vezes, esconder a própria identidade parece ser a única maneira de sobreviver.

O opressor não procura compreender. Acredita ter certeza absoluta de que o diferente está errado e precisa ser eliminado por não seguir os padrões que considera inquestionáveis — muitas vezes, justificados em nome da religião.

2. Quem são as personagens?

Ester — Uma jovem judia que esconde sua identidade porque revelar quem é pode colocá-la em perigo. Ela se torna rainha, mas mantém em segredo sua origem, seguindo a orientação de Mordecai.

Mordecai — Um homem que não esconde sua identidade e se recusa a se curvar diante de Hamã. Sua postura provoca a ira do poderoso conselheiro do rei. Discretamente, Mordecai também descobre uma conspiração contra Assuero e ajuda a salvar a vida do monarca, embora seu feito não seja imediatamente recompensado.

Hamã — Um homem influente, casado com Zeres e pai de dez filhos. Era a principal autoridade do reino depois do rei. Bem-sucedido e poderoso, poderia ser apresentado como alguém zeloso pelo país, preocupado com a ordem e com as leis. Afinal, era assim que procurava justificar suas ações.

Mas, por trás desse discurso, havia uma raiva mortal de Mordecai.

Hamã transformou uma inimizade pessoal em uma acusação coletiva. Convenceu o rei de que existia um povo perigoso, diferente dos demais, cujas leis não deveriam ser toleradas. Propôs sua destruição e ofereceu dinheiro aos cofres reais.

O próprio texto bíblico registra sua argumentação:

“Existe espalhado e dividido entre os povos em todas as províncias do teu reino um povo, cujas leis são diferentes das leis de todos os povos, e que não cumpre as leis do rei; por isso não convém ao rei deixá-lo ficar.

Se bem parecer ao rei, decrete-se que os matem; e eu porei nas mãos dos que fizerem a obra dez mil talentos de prata, para que entrem nos tesouros do rei.”

— Ester 3:8-9

Perceba a estratégia: Hamã apresenta as diferenças daquele povo como uma ameaça à ordem estabelecida. Em vez de revelar seu ódio pessoal, constrói uma justificativa política para exterminar um grupo inteiro.

Era o vilão daquela trama, mas sua maldade vinha disfarçada de zelo e preocupação com o reino.

Rei Assuero — Distraído e pouco criterioso, aceita a proposta de Hamã e assina o decreto sem investigar adequadamente a situação.

Na minha imaginação, a cena poderia ser resumida assim: “Bora beber e comemorar! Afinal, é só um povinho sem valor. Que diferença faria para a humanidade?”

Sabe de nada, inocente…

3. E o que aconteceu?

Hamã consegue o que queria. O rei assina o decreto que condena os judeus à morte.

Mas a situação muda quando Ester revela sua identidade e denuncia o plano de Hamã. Assuero descobre que sua própria esposa pertence ao povo condenado e que foi manipulado pelo homem em quem confiava.

Mordecai também é reconhecido por ter salvado a vida do rei.

O decreto, porém, já havia sido publicado e não podia simplesmente ser revogado. A solução encontrada foi emitir um novo decreto, permitindo que os judeus se reunissem e se defendessem daqueles que tentassem atacá-los.

Hamã acabou sendo condenado à morte, e Mordecai assumiu uma posição de destaque no reino.

A trama sofreu uma reviravolta. O povo que estava condenado à destruição recebeu a possibilidade de se defender.

Mas fico pensando em uma coisa: quantas vezes somos como o rei Assuero, aceitando as meias-verdades de pessoas mal-intencionadas sem questionar?

Quantas vezes só percebemos a gravidade da injustiça quando descobrimos que alguém da nossa família faz parte do grupo perseguido?

4. A história não ficou no passado

É importante lembrar o contexto original dessa narrativa: Ester era uma jovem judia que vivia no Império Persa, em um ambiente cultural e religioso diferente daquele de seu povo. Ao se tornar rainha, teve a oportunidade de intervir para impedir a destruição dos judeus.

Entretanto, a história de perseguição aos diferentes continua reaparecendo, de outras formas, ao longo dos séculos.

Negros, judeus, gays, travestis, pessoas transexuais, refugiados, imigrantes, pessoas com deficiência e tantos outros grupos já foram e continuam sendo alvos de discriminação, exclusão e violência.

Atitudes racistas, homofóbicas e xenofóbicas não combinam com o amor ao próximo que Jesus ensinou.

E o preconceito nem sempre se manifesta como ódio explícito. Às vezes, aparece na tentativa de corrigir o outro, de determinar quem ele deveria ser, de afirmar que sua identidade é errada ou de dizer que seu lugar não é aqui.

É o desejo de que a pessoa possa até existir, desde que seja bem longe de nós, sem ocupar os mesmos espaços e sem ter os mesmos direitos.

Tudo isso pode dar lugar a Hamã. Não a Deus.

É Hamã no poder.

5. Quando o preconceito veste a roupa da superioridade

Um dos exemplos mais cruéis da história humana foi o regime nazista, centralizado na figura de Adolf Hitler.

Discursos de superioridade racial, especialmente a ideia de uma suposta raça ariana superior, foram usados para justificar a dominação, a perseguição e o extermínio de milhões de pessoas.

Os judeus foram o principal alvo do Holocausto, mas o regime nazista também perseguiu outros grupos, entre eles pessoas com deficiência, homens homossexuais e o povo romani, conhecido como cigano.

É impossível não lembrar de Alan Turing.

Matemático britânico e pioneiro da computação, Turing teve um papel fundamental no trabalho de decifração dos códigos secretos alemães durante a Segunda Guerra Mundial. Seu trabalho e o de seus colegas em Bletchley Park contribuíram decisivamente para o esforço de guerra dos Aliados. Há estimativas históricas de que esse trabalho tenha ajudado a encurtar a guerra em até dois anos e, consequentemente, salvado milhões de vidas.

Sua contribuição para a computação também deixou marcas profundas no mundo em que vivemos. Os fundamentos teóricos desenvolvidos por Turing ajudaram a abrir caminhos para a informática moderna.

E, apesar de tudo o que fez pela humanidade, ele foi condenado criminalmente na Inglaterra por sua homossexualidade.

Em 1952, recebeu uma condenação que o levou a se submeter à castração química, como alternativa à prisão. Morreu em 1954, por suicídio, segundo a conclusão oficial da época.

É doloroso pensar que um homem que contribuiu tanto para salvar vidas tenha sido submetido a tamanha injustiça por ser quem era.

Anos depois, o Reino Unido reconheceu oficialmente a injustiça sofrida por Turing. Em 2021, seu rosto passou a estampar a nota de 50 libras, uma homenagem à sua contribuição científica e histórica.

Os homens o condenaram, mas seu legado permaneceu.

A história de Turing nos lembra que uma sociedade pode se beneficiar imensamente da contribuição de alguém e, ainda assim, tratá-lo de maneira cruel por causa de sua identidade.

6. Afinal, quem colocamos no poder?

Montando esse imenso quebra-cabeças, percebo que sempre haverá pessoas diferentes no mundo. Cada ser humano é único, mas alguns grupos continuam sofrendo repressão, tentativas de padronização e até projetos de extermínio.

Resta saber a quem daremos crédito.

Ao decreto de Hamã, que transforma diferenças em ameaças e pessoas em inimigos?

Ou aos ensinamentos de Cristo, que nos chamam a amar o próximo?

Para mim, Hamã representa aquilo que é contrário à vida: a opressão, o preconceito e a tentativa de apagar o outro. Cristo, por sua vez, é o Autor da vida, aquele cujos ensinamentos me convidam a acolher, amar e rever minhas próprias atitudes.

Naquela época, fiquei me perguntando quem seria Hamã. Quem seria aquele homem capaz de provocar o apagamento da história de um povo inteiro?

Anos mais tarde, eu descobriria que essa pergunta também precisava ser feita diante do espelho.

7. Quando Hamã chegou à minha cozinha

Anos depois, meu filho se revelou gay.

E eu, desesperada, comecei a orar para que Deus o transformasse. Eu pedia que meu filho virasse homem, como se sua orientação sexual significasse que ele precisava ser consertado.

Eu estava estatelada na cozinha, em lágrimas, implorando a Deus por uma mudança.

Foi então que uma frase veio à minha memória, como uma voz no coração:

“Errais, não conhecendo as Escrituras, nem o poder de Deus. Porque, na ressurreição, nem casam, nem se dão em casamento; são, porém, como os anjos no céu.”

— Mateus 22:29-30

Essa passagem, que fala sobre a ressurreição e o casamento, ganhou um significado pessoal naquele momento. Ela me levou a questionar minhas certezas e a pensar no quanto eu precisava conhecer melhor as Escrituras e rever a maneira como estava olhando para meu filho. Essa questão da sexualidade era algo meramente terreno. E que vale mesmo é o coração e não a orientação sexual.

Também me lembrei de que meus filhos pertencem a Deus e são amados por Ele.

Naquele momento, comecei a aceitar meu filho em amor.

Ali se iniciou o fim do processo de apagamento da identidade dele dentro da minha própria casa.

Meu filho é especial para Deus. E eu não precisava transformá-lo em outra pessoa para amá-lo.

Foi aí que liguei os pontos.

Dentro da religião, muitas vezes se tenta apagar a comunidade LGBTQIA+ por meio de discursos sutis, revestidos de zelo espiritual, mas carregados de preconceito homofóbico.

Assim era Hamã.

E, dolorosamente, eu também havia participado desse processo.

Pedi perdão ao meu filho.

Passamos a viver em paz, e eu o amo com todo o meu amor de mãe.

Essa é a minha família.

8. Reconhecendo Hamã nos dias de hoje

Desde então, quando vejo alguém dentro da religião tentando apagar a comunidade da qual meu filho faz parte, lembro-me de Hamã.

Foi assim em 2018, quando, durante sua campanha presidencial, Jair Bolsonaro popularizou a declaração de que “meninos vestem azul e meninas vestem rosa”, associada à então futura ministra Damares Alves, que a proferiu na ocasião.

Para mim, esse tipo de discurso é inadmissível vindo de uma liderança política que deve representar e respeitar todas as famílias.

Quando um governante apresenta um único modelo de identidade como o correto, corre o risco de excluir aqueles que não se encaixam nele.

E, quando essa exclusão é reforçada por discursos religiosos, a situação se torna ainda mais preocupante.

Não se trata apenas de discordar de alguém. Trata-se de decidir quem merece ser respeitado, quem pode ocupar determinados espaços e quem deve esconder sua identidade para ser aceito.

É assim que a intolerância se instala: nem sempre com ameaças explícitas, mas com palavras que parecem inofensivas, regras que parecem naturais e convicções que nunca são questionadas.

Por isso, hoje, quando reconheço esse movimento, sei o nome que dou a ele:

Hamã no poder.

9. O que aprendi nessa caminhada

Não escrevo este texto porque sempre soube o que era certo.

Escrevo porque precisei aprender. Precisei reconhecer que, mesmo desejando fazer o bem, eu poderia contribuir para o sofrimento de alguém.

Acreditava estar protegendo meus filhos quando tentava afastá-los de tudo aquilo que considerava errado. Mas, quando meu próprio filho revelou quem era, precisei entender que amar também significa abandonar a tentativa de controlar a identidade do outro.

Não foi uma mudança que aconteceu por eu ter todas as respostas. Foi uma mudança que começou quando me permiti questionar minhas certezas.

Hoje, compreendo que a intolerância não se limita ao ódio declarado. Ela também aparece quando queremos corrigir pessoas que não precisam ser consertadas, quando negamos a elas o direito de existir plenamente ou quando usamos a religião para justificar a exclusão.

A fé não deveria ser um instrumento de apagamento.

Se digo que sigo a Cristo, preciso olhar para a maneira como trato as pessoas. Preciso reconhecer que a dignidade humana não depende de alguém se encaixar nas minhas expectativas.

Sempre haverá diferenças entre nós. Isso não precisa ser uma ameaça. Pode ser uma oportunidade de aprender, de conviver e de ampliar nossa compreensão sobre o amor.

Resta saber se daremos crédito ao decreto de Hamã, que oprime, ou aos ensinamentos de Cristo, que nos convidam a amar o próximo.

Eu já sei qual caminho quero seguir.

E, quando percebo que estou repetindo velhos padrões, lembro que também preciso vigiar meu próprio coração.

Porque Hamã não está apenas nas páginas de um livro ou nas atitudes de pessoas que condenamos.

Às vezes, ele aparece em nossas certezas, em nossos preconceitos e nas nossas tentativas de decidir quem o outro deveria ser.

Que eu nunca me esqueça de que a fé deve produzir amor, justiça e vida — nunca apagamento.

Mais amor. Menos Hamã.

Lina Linólica



domingo, 22 de março de 2026

O Solo Sagrado da Existência Humana

 

O Solo Sagrado da Existência Humana

Hoje fui à igreja e encontrei muita gente querida. Ao término do culto, foram abraços saudosos e conversas rápidas. Fiquei pensando em uma velha conhecida sobre a qual tenho refletido muito nesses dias: a cidade de Jericó.

O pastor Anésio nos convidou para um caminhar com Jesus na entrada dessa cidade, durante seu encontro com Bartimeu, e também na saída, em seu encontro com Zaqueu.

Voltei para casa pensando nesses encontros de salvação.

Bartimeu grita a plenos pulmões:
— Jesus, filho de Davi!!!

E foi essa frase que me fez viajar no tempo — para um tempo muito mais distante, antes mesmo de Jesus nascer neste mundo.

Lá estava a mesma Jericó, prestes a ser destruída.

Mas, antes de Josué marchar contra a cidade, ele encontra um anjo e pergunta se estava ao seu lado ou ao lado dos inimigos. O anjo responde que não está de lado nenhum e pede que ele tire as sandálias, pois o lugar onde pisa é santo.

Que lugar é esse?

Não é um espaço físico, mas um lugar onde há gente clamando por socorro: o solo sagrado da existência humana.

Aconteceu com Moisés, quando um povo clamava por libertação da escravidão.
Aconteceu com Josué, quando uma mulher clamou por salvação.

No alto das muralhas de Jericó estava ela: Raabe. Uma prostituta que pediu para ser salva, amarrando em sua janela uma corda vermelha. Tudo naquela cidade caiu, menos a casa marcada por aquela corda.

Raabe foi salva, resgatada e acolhida pelo povo de Israel. Por causa da sua ousadia, constituiu família e entrou na história. Tornou-se ancestral do rei Davi.

E agora, Jesus, na mesma Jericó, prestes a entrar, ouve a frase:

— Jesus, filho de Davi!!!

Será que Jesus se lembrou das histórias que ouvira sobre a ousada Raabe e sua corda vermelha, símbolo de salvação? Ou do anjo que pediu para tirar as sandálias, porque o lugar era santo?

Eu só tenho uma certeza: Jesus, pela forma como tratava as pessoas, sabia muito bem o que era pisar no solo sagrado da existência humana. E, por isso, ia ao encontro dos cativos, promovendo salvação em todos os sentidos. Naquele dia, restituiu a visão ao cego.


Notinha

Faz um tempão que não escrevo. Escrever requer tempo, organização de ideias…
Ultimamente, tenho passeado entre as leituras bíblicas do Antigo e do Novo Testamento e percebido como elas se entrelaçam — entre personagens, histórias e cidades.

Acho tão lindos esses vínculos que resolvi compartilhar um pouco das minhas percepções.


imagem gerada pelo chatgpt ao ler o meu texto ehehe


sexta-feira, 1 de agosto de 2025

A história da touquinha rosa de cetim

 A história da touquinha rosa de cetim


Nesses tempos quase não passeio ou viajo. Vivo uma fase da vida mais reclusa entre casa, trabalho e ajuda no cuidado de minha mãezinha de 94 anos. 


Quase não vou ao centro de Osasco, mas ontem,  precisei consultar um  médico e acabei passando ali pela rua Primitiva Vianco. 


Próximo ao ponto de ônibus tinha vários ambulantes. É raro eu comprar alguma coisa, mas algo chamou minha atenção: era uma touquinha de cetim cor de rosa.


No meu coração ouvi uma voz familiar me dizendo. Compre essa touquinha.


Pensei: - É… vou comprar, afinal de contas, nesse friozinho, pós progressiva, nada melhor do que dormir com uma dessas. O cabelo acorda comportadinho. Nem pense que vou postar minha foto com a touquinha. A gente fica feia pra dedéu. 


E assim iniciei a minha compra com a vendedora ambulante, uma senhorinha idosa:


  • Quanto custa?

  • 15 reais!


Pego o valor  na carteira e  entrego para a senhorinha que extasiada glorifica a Deus.


Achei peculiar a atitude da senhorinha e prontamente ela justifica em sua simplicidade:


  • Acabou de passar uma pessoa aqui dizendo eu não ía vender nada que o meu lugar era em casa fazendo comida.  Disse ela indignada.

 

Abracei a senhorinha e lhe disse palavras de bênçãos sobre seu negócio e sobre a vida dela. Ela  se sentiu agradecida. Seu semblante ficou feliz  cheio de esperança. 


Voltei para casa feliz com  minha touquinha cor de rosa e pensativa. 


Estamos cheios de haters nas redes sociais e agora eles têm saído das telas para atormentar as pessoas. É um povo estranho, cheio de ódio e vive torcendo para que dê errado a vida das pessoas.


O mundo seria bem melhor se ao invés de palavras de agouro,  as pessoas fossem mais gentis umas com as outras.  Não sabemos das lutas que cada um está travando, o mínimo que podemos fazer é ser gentil. 


Por isso que a ênfase de Jesus sempre foi essa, do amor pelo próximo, cura, perdão.  E isso fez eu ganhar o meu dia, pois estava sensível às coisas do reino de Deus.


Agora, cada vez que eu olhar para a touquinha vou lembrar desse episódio  que eu deixei o dia de alguém mais feliz. 




segunda-feira, 23 de dezembro de 2024

A mãe e a filha montando um presépio

 Enquanto crocheto esse mini presépio, meus pensamentos se dirigem a ela, minha mãe de 94 anos. 

Tem sido um desafio muito grande ajudar a cuidar dela. A cada dia é um novo aprendizado, uma nova mania. Minha irmã Cidoca tem liderado essa missão. Minha irmã Neusa é responsável pelo departamento de banhos e eu faço os caldos que ela tanto gosta. 


Tem dias que ela sorri, interage lucidamente e tem dias que está apática, pensativa e calada.

Foi num dia desses, com os olhos quase sem brilho, sem esboçar um sorriso, sem esboçar emoção que lhe perguntei o que se passava e ela respondeu monossilabicamente: 


- Cansada.


 São 94 anos de vida, de história. Tento fazê-la sorrir, preparando o seu caldo predileto. Sirvo com um agrião recém colhido da minha hortinha hidropônica, mas  que nada. Ela come silentemente, focada e rapidamente. Não quer conversa. 


Termina de comer, corre para o banheiro a fim de cumprir  o ritual de escovar os dentes e fazer xixi. Na verdade, ela não corre, mas  vai com seus passos cansados e quase trôpegos, e a gente tem que se levantar no meio da refeição para ajudá-la cumprir a sua meta, como se competisse em uma maratona. Não entendemos o porquê da pressa, mas essa é uma das manias de mamãe.

Pergunto-lhe se não quer ver a “Carinha de Anjo”, novelinha que ela assistia depois do almoço, mas enjoou. Não quer mais ficar sentada no quintal vendo as plantas e o roçar dos gatos. Não quer mais ver TV na sala. Quer apenas ficar no quarto, deitada. Subimos para o quarto. Tento engatar uma conversa falando de crochê, mostrando minhas linhas, minhas invenções, minhas trapalhadas. Ela esboça um sorriso. E assim fico provocando seu sorriso tão escasso e cansado entre linhas e recordações.


- Mãe, a senhora lembra do nosso primeiro presépio?


Ela sorri e voltamos para  o passado.


- Sim. Eu me lembro.


E em meio as linhas, tecemos as nossas recordações:


Ela era uma jovem mãe de uns 40 anos, com sua pequena filha de uns 5 anos, catando barro no pequeno córrego bem próximo a nossa casa. Com aquele barro esculpimos boizinho, vaquinha, ovelhinha, pombinha e pintamos com tinta guache. Eles compunham o nosso pequeno presépio naquele início dos anos 70. Era uma época tão feliz, tão marcante para mim. Não tínhamos dinheiro para presentes, mas tínhamos uns aos outros. E o cenário era esse: Minha mãe, minhas irmãs naquela missão de reconstituir o natal, amassando o papel pedra e colocando solenemente os itens que conseguimos fazer ou adquirimos com muito sacrifício. Com meus olhinhos infantis, me identifiquei mais com o menino Jesus do que com o papai Noel. Cantávamos pobrezinho nasceu em Belém. Talvez o pobrezinho dessa canção tenha feito mais sentido para mim do que o velho papai Noel, o qual eu tinha feito alguns pedidos e não recebido nada.


E essa foi minha primeira experiência com o menino Jesus.


Naquela tarde, rimos bastante das nossas lembranças.


Voltei para casa, peguei receitas no youtube de amigurumis de presépio e resolvi montar esse presépio para ela.


Ontem mostrei para ela a ovelha e a Maria. Ela criticou a minha Maria, dizendo que estava sem boca.  Tive que costurar uma boca, sob protesto, pois não gosto nada de costurar. Rimos bastante, mas logo ela me expulsou do quarto. Acho que queria dormir. 


Hoje, pela manhã acordei sorrindo com essas lembranças, cujo tempo não apagou.


A mãe e a filha montando o presépio.


Hoje, eu sou a filha, já de cabelos grisalhos, crochetando um presépio para a sua velha mãe. Os fios são uma forma de me conectar a ela. Talvez tenha sido o motivo de crochetar tanto esse ano. 


Essas lembranças da pequena menina com o menino Jesus me fizeram muito bem


E assim, finalizo meu pequeno presépio para dar para ela nesse quase final de ano.


E aproveito para deixar aqui meu desejo de um Feliz Natal, com a presença preciosa de Jesus, que nos reconecta com a nossa humanidade. 







quinta-feira, 28 de dezembro de 2023

O Puxadinho

 O Puxadinho



No decorrer da nossa existência a gente vai acumulando tantas coisas. Teve uma época na minha vida em que eu parecia o Julius ( Todo mundo odeia o Cris) e tinha dois empregos. Pedi demissão de um deles e me mantive apenas em um. Cortei gastos e foi aquela época pós pandêmica onde a gente repensa a nossa existência e acaba descobrindo que a gente  carrega peso demais.


A carga mental e o stress diminuiram, mudei parcialmente de área e virei a professora de alface (piadinha interna, tá). Comecei a me dedicar à hidroponia e a ensinar algumas técnicas de cultivo. 


E o ano de 2023 chegou e percebi mais um tipo de acúmulo. Dessa vez era o peso que carregava nesse meu corpo.  Ele não estava programado para suportar tanto e em consequência disso, as dores eram constantes. Cheguei em  um momento que tive dificuldades para amarrar os meus sapatos, sem contar as noites que eram regadas de refluxos. Acordava pensando qual seria a dor nova que iria aparecer dia seguinte, na sola do pé, no calcanhar ou no joelho  e justificava: - coisas da idade

… afinal já tô com 57 anos. Quando a gente constrói puxadinhos, sem analisar a estrutura, pode “dar ruim”.  Foi assim que  o meu corpo acabou chegando aos quase 100 quilos e eu nem percebi. Decidi tomar algumas atitudes, entrando para um programa de emagrecimento da Jessica Pense Leve, que foi crucial para perceber os “puxadinhos” que a gente vai colocando em nosso corpo de forma quase imperceptível no decorrer dos anos. Aprendi:


  • Meu corpo é templo do Espírito Santo, por isso não devo maltratá-lo (essa é minha frase diária, para lembrar de cuidar melhor desse tabernáculo  que Deus me deu).


  • A beber mais água. 


  • A não comer minhas emoções, mas nutrir o meu corpo apenas quando estou com fome.


  • A descascar mais e desembalar menos, ou seja, voltar mais ao natural, àquilo que Deus criou. 


  • Tomar café sem açúcar e perceber que o amargo também é muito bom. 


  • Praticar esporte é saúde para o meu corpo.


  • Dá para emagrecer, mesmo estando na menopausa e com 58 anos. Sim, já   foram quase 30 kilos a menos nesse corpo, de forma leve, saudável, sem loucuras.


  • A ousar em mais uma mudança. Já  tinha abolido a tintura dos meus cabelos. Dessa vez foi a progressiva de anos a fio. Resolvi experimentar cortar o cabelo bem curto por conta do calor e deixá-lo ao natural e  percebi que gosto também  dos meus cabelos crespos.


2023 foi um ano de desafios e estou feliz com o resultado. Só o fato de desmanchar aquele puxadinho que tinha construído toda a minha vida, já me deixa mais leve, mais ágil, mais saudável e penso que é isso que Deus quer para a nossa vida:


Ele diz: "Tirei o peso dos seus ombros; suas mãos ficaram livres dos cestos de cargas. Salmo 81:6


Que o ano de 2024 seja mais leve, com mais saúde sem gambiarras e puxadinhos a fim de que possamos experimentar a boa vontade de Deus. 





Notinhas que a gente lembra depois:

1) Em janeiro de 2023, alguém comentou: - se você ganhasse um monte de dinheiro, o que faria? no meu íntimo respondi: - não quero ser rica, quero ser magra. Na mesma semana, me mandaram uma live da @jessicapenseleve e foi aí que a mudança, que há tantos anos eu havia tentado e sem sucesso, começou a acontecer.

2) Em julho de 2023 pude dar entrevista e aparecer na Globo, - https://globoplay.globo.com/v/11840814/,  diferente de 2017, em que dei entrevista, mas só apareci gordamente de relance  https://globoplay.globo.com/v/6207377/

3) Tenho feito exercícios em casa. Esse é meu canal favorito: https://www.youtube.com/@BurpeeGirlShorts

4) E para não perder o costume: quem não leu meu livro "Desconstrução", ele está na Amazon e você pode adquirir pelos link:- https://amz.onl/7yvNaBn - Escrevi em 2018, contando como me descontrui ao saber que meu filho é gay.


terça-feira, 17 de janeiro de 2023

O deserto

 O DESERTO


Nesse ano de 2023 resolvi conhecer o  deserto do Atacama no Chile. Foram dias intensos, felizes, com paisagens marcantes, nesse  dia,  estava no mirador de Kari, na pedra do Coyote e o meu coração estava muito triste ao saber das últimas notícias acontecidas no congresso nacional. Fiquei ali, quietinha, orando pelo Brasil. Confesso que nesse ano de 2022 acordei várias vezes de madrugada para orar pelo meu país, pois uma idolatria se instaurou no meio da igreja e as pessoas nem perceberam. 


A idolatria


Tenho amigos, gente muito querida nesse transe que nem se aperceberam.  Com relação a ídolos, a Bíblia diz:

“Tornem-se, portanto, como eles, aqueles que os fazem e todos os que neles confiam! salmo 115:8”

E foi nesse ídolo, que muitas delas se tornaram - pessoas doentes, atacando, cheias de ódio. Sendo infladas pela mentira, pelas fake-news. Tornaram-se homens bombas. Eu tive o desprazer de ver apenas 3 videozinhos que circulam nessas redes bolsonaristas. Um deles deletei, mas outros dois eu arquivei o qual compartilho, não para envenenar ninguém, mas para que minhas palavras tragam cura. Confesso que não tenho mais estômago para assisti-los, pois sei que esse tipo de material é  suficiente para causar um grande estrago  na alma dessas pessoas. Imagine a quantidade de vídeos desse estilo que circulam diariamente em redes bolsonaristas? É desumano isso. E essas pessoas, seguem cegamente seu ídolo e se tornam como ele. 


Como é instalado um deus estranho na alma das pessoas?


Foi no ano de 2018 que recebi um deles e resolvi abri-lo. Percebi  várias pessoas queridas hipnotizadas pelo engano de Damaris Alves. E vi que era esse conteúdo que consumia em algumas ministrações na igreja. Senti-me envergonhada, pois também recebi esse tipo de alimento e acreditava piamente, pois achava que ali era uma autoridade falando, mas chequei cada informação dela e percebi o quanto de alarmismo infundado entrou na igreja nesses anos. Ela pegava textos fora de contexto dando uma dimensão tão grande com uma pitada de mentira e as pessoas consumiam tudo isso. Que deus estranho. Nesse interim escrevi o meu livro "Desconstrução" e a postagem “O Diferente” só de pensar nesse vídeo e nesse pensamento que foi entrando sutilmente nas igrejas, mas o estrago já estava feito.

https://drive.google.com/file/d/1suWibIn0LZZSOpfKf8dBNXXsr_EMckmy/view?usp=sharing


O segundo vídeo recebido  é recente. É uma espécie de maratona pros patriotas não desistirem dando a entender que até do Catar estaria  vindo reforço e uma série de outros eventos. Isso inflamou a alma dessas pessoas. As pessoas consumiam diariamente  esse conteúdo como droga, seguindo esse deus estranho. Admira que gente querida ainda apoie esse bolsonarismo,  sendo conivente com essas atrocidades no país, com esse “talibã evangélico” e  com a criação desses homens bombas.

https://drive.google.com/file/d/1su_9QP-XVtiGPC0fCXOTZ0TV8P87eDu_/view?usp=sharing

É claro que esse é só um dos vídeos que veio para mim, talvez por engano, mas imagino que centenas deles circulem nas redes sociais. Volto a enfatizar, quanto deus estranho tem penetrado nas entranhas das pessoas adoecendo-as a ponto de invadirem o congresso nacional. E muitos evangélicos apoiando essas atrocidades. Achando que existe uma luta invisivel entre bem e o mal. Foram condicionadas a isso. Eu ouvi isso a minha vida toda… mas era um deus estranho.  Eu realmente me sinto mal por tudo isso. 


Bem x Mal?


Infelizmente eu não sei se existe cura, pois enquanto o ódio e a mentira operar nessas vidas, não tem espaço para Jesus agir. Tenho visto Jesus fora dessa igreja, batendo na porta…mas quem se habilita em soltar seu ídolo? Enquanto escrevo isso, sei que algum deles vai vir aqui dizer: - E o Lula? Que é argumento predileto deles… mas não se trata de um versus  o outro. É perversa e diabólica essa lógica de quem vota nesse ou naquele vai pro céu ou inferno, como se a salvação dependesse de um político, trocando-se Jesus por um ídolo. Uma amiga uma vez me disse: - que bom que estamos do lado certo… mas não gosto de olhar por esse prisma, gosto de apenas exercer meu direito de cidadã. Pois pra mim  o Lula é apenas o presidente que foi eleito democraticamente e que tem recebido minhas orações,   como o presidente anterior. Esse é o papel do cristão. Mas hoje… vejo essa nação dividida, famílias divididas e cegadas por esse ídolo.


É necessário ir para o deserto


Às vezes, a gente precisa de sair do círculo vicioso do sistema, senão você acaba sendo engolido por ele. Gosto de observar Jesus, que volta e meia vai para lugares mais retirados. E nesse ano de 2023, eu literalmente fui para um. É claro que fui mochilar,  e não fui a um retiro, foi turismo mesmo, mas tive algumas pitadas de momento com Jesus:

“ Ele com sede,  sol a pino, aquela mulher no poço tirando água,  ele pede água e, em algum momento a mulher diz: - Como sendo tu judeu, fala comigo sendo eu uma samaritana? Existia ali uma divisão histórica. Samaritanos x Judeus. E a mulher perguntando quem tá certo? E Jesus diz: nem um, nem outro… essas coisas começam no coração. Verdadeiros adoradores adoram no coração, em espirito e em verdade. Vem de corações sinceros.


“Outra situação de deserto, foi quando mataram o primo de Jesus. E ao invés de ele ir invadir o palácio, quebrar tudo,  Ele vai pro deserto alimentar gente. Distribuir amor, ensino, inclusividade. Eu olho para tudo isso e fico agonizada porque só consigo enxergar um deus estranho no meio desse povo.”


Salmo 81 para não perder o costume


É interessante que no ano de 1998,  numa madrugada, enquanto orava pelo meu filho, ouvi Espírito Santo sussurrar em meu coração, leia 10 vezes o salmo 81. E eu lia e não entendia…

Nas noites seguintes, enquanto me preparava para orar, em meu coração vinha a mesma voz:  “Salmo 81”. Como aquele menino do Karatê Kid “tira casaco” “põe casaco”. Foram inúmeras madrugadas em que lia o salmo 81 e perguntava para Deus o porquê de tudo aquilo. Não conseguia entender. Escrevia minhas percepções sobre o salmo, mas volta e meia, lá  estava eu novamente a ler o salmo 81, pois sabia que ali estava a trajetória humana. Ali tinha um deserto. Ali estava eu. Ali estava Jesus. 


“Não haverá entre ti deus alheio nem te prostrarás ante um deus estranho.”


A parte que mais me impactava era sobre o deus estranho. Eu era tão zelosa com relação as coisas de Deus (pelo menos àquilo que aprendera nas igrejas).  Mas o Espírito dizia: Tem deus estranho, mas no início eu não conseguia identificar. 


Os anos se passaram e eu fiquei com essa palavra incrustada na minha alma. Ficou mais  fácil  distinguir o falso do verdadeiro. No Salmo 81, Jesus está presente, não colocando jugo pesado nas nossas almas, mas nos libertando da escravidão. Ele nos orienta constantemente para ouvi-lo e exorta-nos para não termos deuses estranhos, pois é perigoso demais e pode cegar as pessoas. 


Não pisoteie o solo sagrada do existência


Na oração do Pai Nosso, onde repetimos “Santificado seja o vosso nome” é honrar o nome de Deus - É não disseminar fake news em nome Dele. Isso me lembra Moisés, num lugar deserto, vê uma sarça ardente e ouve a voz: - Tira a sandália, pois o solo é sagrado. O  solo sagrado da existência não é para ser pisoteado, massacrado, mas pisar com cuidado, solenente, com reverência.  


Mas e Deus, família e pátria? Jamais dependerei de político para adorar a Deus, pois a adoração começa no coração. Lembra do conselho de Jesus à mullher samaritana? E a família? Jamais dependerei de político para cuidar da minha família. É atribuição minha o cuidar e o educar dos meus filhos… nem muito menos de escola. Escola ensina, família educa. E a pátria? Trabalho honestamente e dou a césar o que é de césar e dou a Deus o que é de Deus. Esse é meu princípio para que a pátria seja honrada. Na minha primeira viagem para a Europa, naquele ano de 2007, vi que o tranvia não tinha muro, não tinha cobrador, não tinha catraca. Apenas se validava o bilhete numa maquininha e a gente tomava a condução. Aquilo me intrigou e perguntei para um senhor espanhol se as pessoas não burlavam tudo aquilo. Ele respondeu: - Precisa ter amor no coração!  Amor à pátria é isso: - Precisa ter amor no coração. Não para levar vantagem, mas para fazer o que é certo. Sei que estamos longe de tudo isso, mas é o que Jesus nos ensina. 


É muito oportuno usar esse argumento, pois acho que todos, ou quase todo mundo ama à Deus, ama a sua família e ama o seu país, mas a fundamentação de tudo isso foi  oportunista permitindo que um deus estranho fosse instalando na alma das pessoas e o que vejo hoje é muito perigoso. Tem gente literalmente explodindo. Quem tem ouvidos ouça… 


Com amor


Lina Linólica

17/01/2023



Eu ía escrever mais, mas já tinha escrito outros artigos com argumentos semelhantes:

"O diferente" - http://linolica.blogspot.com/2021/06/o-diferente.html

"Qual mentira contaram para você?"

https://linolica.blogspot.com/2022/06/qual-e-mentira-que-contaram-pra-voce.html

"Desativando Homens Bombas"

https://linolica.blogspot.com/2019/03/desativando-homens-bombas.html

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sexta-feira, 4 de novembro de 2022

Campanha do Abraço

 Campanha do Abraço

Era uma terça-feira. Fui cedinho ao Instituto Carisma e me deparo com as crianças esperando ansiosas pela oficina de Mentes Notáveis que iria começar às 9 horas. Quando me viram, ficaram  alvoroçadas, perguntando se iria ter a minha oficina. Eu expliquei-lhes que na terça-feira era dia de eu trabalhar com a hidroponia e que eles não teriam a minha aula, portanto deveriam esperar, já que tinham chegado tão cedo. Era 8 horas ainda. Um deles veio atrás de mim. Enquanto ligava meu computador ele ficou observando meus gestos como se quisesse dizer alguma coisa. 

-  Por que você veio tão cedo? Disse-lhe, puxando conversa. 

- É que eu gosto muito de estar aqui professora.

- Que bom que você gosta de estar aqui. Disse sorrindo

Os olhinhos dele ficaram ligeiramente molhados e com a vozinha quase que embargada me confidenciou: 

- É que quando estou em casa meu irmão fica batendo em mim.

- Puxa... Que coisa mais chata. E você conta para a sua mãe que ele bate em você? 

- Sim professora, mas ela nunca faz nada!

Eu levantei e dei-lhe um abraço, como se embalasse aquela dor. Ele sentiu-se confortado.

De repente, o olhar de tristeza foi desanuviado e ele saiu correndo e pulando para brincar com as outras crianças.

Percebi que nesse simples gesto foi quebrado o ciclo da dor, da tristeza

É claro que mais tarde, procurei a nossa psicóloga e expus o caso dele para uma averiguação com a família. 

Agora, sempre que ele me vê, ele quer um abraço. E não é só ele. Sempre tem uma comitiva que aparece na minha sala com um dente de leão, uma florzinha, uma pedrinha, uma concha ou um desenho  e depositam sobre a a minha mesa seus tesouros. Eles contam suas histórias e sempre sobra um abraço para a gente. 

E eu realmente amo muito tudo isso. São momentos tão preciosos que faz a vida da gente valer a pena. Eles não fazem ideia de como é importante para nós educadores essas doses de carinho, principalmente sabendo de suas origens de muita vulnerabilidade social. 

Nessa madrugada, eu acordei  com meu coração tão angustiado, pensando no que fazer para tentar amenizar a dor no coração das pessoas, pois tenho visto tanta divisão, tanto ódio, tanta carga pesada pelo acúmulo de informações que nos chegam. A sociedade tem estado tão estranha nesses últimos anos. Fui me achegando a Deus em oração, como aquele meu aluninho de olhos anuviados e naquele momento veio  nitidamente a cena que acabei de descrever e pensei: como um simples abraço pode ser  restaurador. Senti-me abraçada em minhas memórias, senti-me embalada pelo Pai.

Eu queria, de todo o meu coração, deixar aqui um abraço para cada um que ler essa mensagem. Que seja um abraço terno e   traga luz aos olhos embaçados pela dor e pelo desamor. Um abraço de paz e leveza aos corações.

Com muito amor, 

Lina




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